10/06/2009

Barbarella

Às sexta-feiras, Maria Augusta, como a chamavam no trabalho, ficava o dia todo olhando para o relógio, esperando o fim do expediente. A figura dela era como um triste esqueleto de pessoa que odiava o sorriso falso de seus colegas de trabalho. No fundo eles sabiam que ela não era como eles. Fora dali ela era Guta para os parentes e amigos, mas também não gostava de ser Guta, nem a Maria Augusta cheia de obrigações, gostava de ser Barbarella.

Magra, com uma cintura tão fina que era difícil imaginar que suportasse o peso do resto de seu corpo, braços finíssimos, onde mal se podia notar que havia algo entre a pele e os ossos, seu corpo todo parecia mover-se como por um passe de mágica.

Bebia, já em casa, um copo de rum, esperando pela hora da transformação. Duas coisas eram necessárias para que sua noite fosse um sucesso: que não visse com nitidez o que se passasse, e que não fosse vista com nitidez por todos os outros que habitavam aquele seu mundo secreto. Por isso tornou-se gótica, amava a escuridão e amargurava uma tristeza profunda em não poder ser assim e viver neste mundo todo o tempo.

Maria Augusta usava pesados óculos de grau. Barbarella não precisava deles. Ela os deixava em cima da cômoda, vestia cuidadosamente a roupa preta, os pesados coturnos e um sobretudo de couro. A metamorfose se completava com uma pesada maquiagem branca no rosto, batom preto sobre os lábios, olhos negros brilhando.

Antes de sair ouve o telefone tocando, a secretária eletrônica atende: “Você ligou para Guta, ou Barbarella, não importa, a gótica é a mesma, deixe o recado depois do sinal, ou não, o problema é todo seu”. Agora era Barbarella e Barbarella odiava telefones.

No metrô, olhos curiosos não paravam de olhar a estranha figura, alguns garotos começaram a assobiar a música do filme A Família Adams. Momento incômodo, mas ela não se importava. Desceu do metrô e ainda pode ouvir um deles dizer: “E aí, Mortícia, não quer vir aqui chupar o meu pescoço?”. Ignorou a piada e saiu andando pela rua, enquanto andava, sonhava com o que viria, com o que faria, conhecia o caminho como a palma de sua mão, mas, sem óculos, e sem poder prever as mudanças no terreno, uma corrente, antes inexistente, que impedia o acesso à rua também impediu que ela passasse. Ela rodopiou por cima da corrente, e, sem tempo para se proteger, caiu de cara no chão.

Ela levantou-se rápido, olhou em volta num reflexo de vergonha, não parecia haver ninguém. Sentiu o gosto de sangue na boca, quebrara um dente. Mas isto nem chegou a incomodar Barbarella, uma das mais antigas góticas da noite de São Paulo. Chegou até a entrada de seu mundo, sangue escorrendo pelo canto da boca, o que a tornava mais charmosa naquele lugar, uma vampira recém alimentada. Mas ainda era muito cedo, pegou um copo grande de Campari e foi beber sozinha em um canto. Bebeu até sentir-se tonta.

Desceu para o porão, onde ficava a pista de dança. Lotada. Sorriu com o dente quebrado, lambeu o sangue do canto da boca com luxúria, tantas vítimas em potencial. Ela começou a dançar como louca, adorava dançar, sentia que poderia dançar até o fim dos tempos. Dançava e olhava os outros os outros, que apareciam em flashs, congelados em posições estranhas. Ficava um tempo analisando, depois se encostava a um, ou uma, não importava, se aproximava da vítima e partia para o ataque: enlaçava sua vítima e a levava para um canto, abusava dela de todas as formas, do corpo, da juventude, da paixão, e depois a devolvia à pista de dança, e continuava como se nada tivesse acontecido.

De repente, cansou de dançar, estava toda dolorida, talvez da queda sofrida, mas não estava com vontade de ir embora. Chegou até o balcão para mais uma dose de Campari, viu um garoto encostado, uns vinte anos, triste, bebendo sozinho.

“Olá…”

“Oi…”

“Por que tanta tristeza?”

“Problemas…”

“Que tipo de problemas?”

“Problemas com minha namorada…”

“Ah, entendo…”

Ele olhou de volta para ela, ficou espantado com a figura estranha, mas, por mais esquisito que parecesse, sentiu-se à vontade para falar de sua vida com ela, sentiu que devia falar de sua vida com ela.

“Qual seu nome?”

“Barbarella…”

Ele sorriu e devolveu sua alcunha de jogador de RPG.

“Nômade…” hesitou um pouco, mas viu que ela não estranhou o nome que ele lhe dera, “Sabe, o problema é que estamos namorando faz um tempinho, ela tem a mesma idade que eu, só que ela émuito mais experiente, sabe, na cama…”

“Hmm, sei…”

“E ela está louca para transar, mas não quero que ela saiba que nunca fiz, não combina com a imagem que ela faz de mim…”

“Então vamos?!”

“Pra onde?”

“Minha casa, não é tão longe e já estava indo mesmo, e preciso de companhia…”

E ela levou o rapaz para casa, e ela pode encarnar totalmente Barbarella, transaram a noite toda, o amarrou, pingou velas por seu corpo, abusou dele, fez com que ele implorasse, pedisse que parasse, que continuasse…

Às seis da manhã, o relógio despertou, ela se levantou e foi logo mandando que ele fosse embora. Era hora de ir para o trabalho, não tinha tempo a perder. O cara ficou lá, olhando para ela com cara de bobo, recolhendo as roupas. Ele tentou agradecer, mas ela não ouviu, abriu a porta e o mandou sair. Agora voltou a ser Maria Augusta, e de novo, ficaria sonhando acordada todos os dias, com a próxima noite de Barbarella.

Sylvia

A primeira coisa que ela vê quando acorda são suas pernas grossas e brancas. Ela procura por sinais de gangrena, pela perna podre, quase caindo, que há pouco era tão real e palpável, porém tudo não passou de um pesadelo. Reflexo de culpa por ter feito aquela tatuagem, aquela coisa de adolescente. Já não havia passado o tempo de ter esse tipo de atitude?

Fora do quarto ela escuta alguém fazendo café. Ela houve um copo se quebrando, cacos voando por toda parte, e logo depois gemidos baixinhos. Sua mãe já havia se levantado, provavelmente estaria confusa, já não sabia mais direito como fazer as coisas, a idade fez com que ela voltasse a ser criança, em suas atitudes, lembranças. Naquela casa viviam duas crianças em corpo de adulto, mas ela, diferentemente da mãe, nunca havia feito um caminho de volta.

Sylvia já tinha quase quarenta anos e ainda morava na casa da mãe, seguindo as regras da casa. Quando, por algum motivo, resolvia chegar mais tarde em casa, sua mãe ainda se desesperava, ficava acordada, esperando, não tinha nenhum tipo de liberdade. Sua mãe achava que ela não podia cuidar de si mesma, a filhinha caçula, eternamente aos seus pés, até a morte. Morte que nunca vinha, exceto para suas memórias e inteligência.

Ela desce e vai ver o que aconteceu: tudo está uma terrível bagunça, café e açúcar espalhados, cacos de vidro por toda parte. Mais essa agora, ela se sente terrivelmente magoada com aquilo tudo, por ter que carregar aquele fardo terrível e ainda ter que começar o dia daquela forma, mas, de sua boca, apenas sai um “Pode deixar, mãe, eu limpo tudo aqui...”, ela não tinha culpa, já não sabia o que fazia, repetia para sim mesma enquanto limpava tudo. Mas ela não se conteve com a insistência da mãe em ajudá-la. Gritou para que deixasse para lá, já estava resolvido. A mãe olhava contrariada, depois com os olhos de uma criança. Falava com a autoridade de uma filha repreendendo uma mãe: grita, pede que ela não faça mais aquilo, tudo em meio a um choro histérico e irritante. O olhar de sua mãe mudava para o desespero, desespero sem tamanho de alguém que se esforçava para entender, mas não conseguia. Estranhamente, depois deste tipo de cena, ela se sentia um pouco vingada, sentia prazer no sofrimento da mãe.

Ela sempre tentava se levantar antes dela, mas, de alguma forma ela percebe este esforço e acorda primeiro, sempre um pouco antes que ela, cada vez mais cedo, e é impossível fazê-la parar com isso.

Mais tarde a enfermeira chega, estava livre para ir para o trabalho.

No ônibus, ela começa a sentir o vazio de sua vida, tristeza, solidão. Vazio de uma vida que nunca existiu realmente, sempre fora uma sombra, nunca conseguiu se libertar, vê que outras pessoas estão olhando e faz um grande esforço para impedir que uma lágrima escorra por seu rosto, mas já era tarde. Estava na hora do seu remédio. Metal leve, lítio, controle para seu transtorno bipolar, assim preenchia o vazio, quimicamente, não havia consolo real, não havia mundo real, tudo não passava de reações em seu cérebro, de conexões bioquímicas que estavam funcionando de forma anormal, analisaram seu sangue e seu cabelo, então disseram: é de lítio que você precisa, falta em seu cérebro, e ela obedeceu, como a ovelhinha que sempre foi.

Ninguém em seu trabalho tinha paciência para ouvi-la. Ela também não queria ouvi-los, ela queria falar, falar sem parar, e enquanto outros falavam, ela apenas se concentrava em não perder o ponto onde tinha parado, queria apenas continuar o que estava falando, falar e falar.

“Por que ninguém me escuta?”

Queria falar sobre suas doenças, reais e imaginárias, queria falar sobre remédios, tratamentos, sobre sintomas, novas descobertas da medicina no combate à depressão. Quando ela chegava para o café, primeiro todos ficavam quietos, esperando que ela não incorporasse nenhum dos assuntos que eram falados. Depois todos se apressavam para terminar o café, café tomado quente demais, inúmeras línguas queimadas e de volta ao trabalho, ela fazia o lugar funcionar.

Seu trabalho era mecânico e repetitivo. O dia todo para pensar, para oscilar de humor, montanha russa de sentimentos. Ora queria dançar, cantar, mostrar a todos suas novas tatuagens sobre suas novas tatuagens feitas para irritar a mãe que nem mesmo percebeu que ela as havia feito, falar de filmes e livros, ora uma nuvem de inadequação tomava conta de seus pensamentos, queria morrer, queria que todos morressem, queria fugir de sua vida.

Comia seu almoço sozinha. Almoço vegetal, saudável, ninguém nunca a acompanhava, e quando insistia em acompanhar alguém, todos pareciam incomodados, ficavam medindo as palavras, com medo de acionar a torrente de palavras, por isso ela preferia acreditar que era ela quem preferia comer sozinha.

Sentia-se se estranha naquele dia, por isso se permitiu uma coca-cola e alguns minutos a mais de almoço, não havia nada tão urgente no que fazia, tudo podia esperar.

Quando voltou haviam ligado para ela, tinha sido a enfermeira, ela precisou se ausentar com urgência. Sua mãe estava sozinha, ela tinha que ir até lá para assumir o lugar da enfermeira, mas sentia um impulso infantil, uma vontade estranha de permanecer no trabalho, deixar sua mãe sozinha um pouco, ela nem mesmo se lembrava que tinha uma filha, além do mais, o que ela poderia fazer além de quebrar alguns copos? Não aconteceria nada de grave, seria apenas mais uma de suas pequenas punições, para sentir-se melhor.

Continuou seu trabalho como se nada tivesse acontecido, tentou fazer com que sua mãe desocupasse o terreno que ocupava em sua cabeça, porém forçá-la parecia fazer com que ganhasse mais força, isso parecia aumentá-la, aumentava seu tamanho e poder, todos aqueles anos de chantagem e superproteção materna tomavam conta de sua mente. Tudo que fez naquela tarde fazia com que se lembrasse de sua mãe, era como se, no final das contas, fosse apenas um fantoche, a punição, como sempre, acabou recaindo sobre ela.

Voltou para casa ao final do expediente, abriu a porta, esperava encontrar sua mãe chorando em algum lugar, tentando consertar algo que quebrara, ou talvez assustada em sua cama, coberta até a cabeça, com medo de alguma coisa. Não estava na sala, nem na cozinha. Foi até o quarto e também não a encontrou, onde ela estaria? A casa estava trancada, não havia como ela ter saído. Foi ao banheiro e lá estava ela, deitada no chão, de bruços, primeiro viu suas pernas brancas que saiam de um vestido azul com bolinhas coloridas. Teria ela dormido no banheiro? Então viu os vidros de desinfetante vazios, o roxo, o amarelo e o verde, estavam todos vazios. Não sabia o que fazer, ajudá-la, ligar para uma ambulância, chamar o vizinho, chorar, gritar. Fez todas as coisas ao mesmo tempo, sem enxergar, sem saber como...

A mãe estava morta. Envenenamento. Teria sido de propósito, para puni-la? Teria sido um ato infantil, uma brincadeira com produtos coloridos, uma tentativa de se alegrar? Ou uma tentativa consciente de acabar com seu sofrimento?

Pessoas desaparecidas há muito apareceram no velório, disseram coisas, choraram, se abraçaram, e por fim jogaram terra por cima dela. Por um momento, no fim de sua existência sua mãe voltou a existir para eles, para ser, logo depois, enterrada em suas lembranças, esquecida novamente, assim com já tinham feito com ela em vida.

Deixaram Sylvia na porta de sua casa. Hesitou muito antes de colocar a chave, mas precisava, o carro atrás dela não iria embora se não fizesse isso, se não entrasse. Finalmente girou a chave, abriu a porta e entrou, ouviu o carro dar a partida e sentiu-se aliviada. O pesadelo havia chegado ao fim. Olhou para a casa escura, acendeu a luz do cômodo, e dos outros todos, tinha a sensação de que a casa havia aumentado assustadoramente.

Ainda estava em choque. Pegou um comprimido e um copo d’água, sentou-se no sofá, olhando para a televisão, pessoas e formas mudando, evanescendo lentamente. Adormeceu. Estava de volta ao cemitério, onde uma multidão sem rosto levava uma enorme embalagem tarja preta. Antes de enterrá-la, pararam para abrir o caixão, para que todos olhassem para a morta pela última vez. Aquilo a aterrorizou, ela não queria que fizessem aquilo, mas não pode impedir. Abriram a embalagem e lá estava ela, não estava morta, estava com os olhos abertos, olhava para a multidão com seu olhar infantil, aterrorizada por não reconhecer ninguém naquela multidão. Ela começou a tentar se encolher, se esconder de todos, mas não havia espaço, mas não foi preciso, eles vieram e fecharam a caixa e a colocaram dentro do buraco, ainda era possível ouvi-la chorando lá dentro...

Acordou assustada. Já era noite. Ela nunca acreditou em vida pós-morte, e o resto de religiosidade que tinha, havia desaparecido com a doença de sua mãe. Mas mesmo assim, sua mente lhe pregava peça, podia sentir a presença de sua mãe na casa, sentia como se ela estivesse em todo lugar, ela queria que isto acabasse, queria deixar sua mãe para trás, queria também esquecer, mas não podia, não conseguia.

Foi até o quarto de sua mãe e abriu uma gaveta cheia de caixas de sapato com fotografias do passado. Fotos de seus irmãos, de sua infância, de seu pai. Todos que habitaram aquela casa e haviam desaparecido. Seu pai também havia morrido, anos antes, mas tinha sido diferente, ainda viviam como uma família na casa, um dia ele simplesmente levou a mão ao peito e morreu, ataque cardíaco. Obviamente foi um choque para todos, mas foi logo superado. Porém isto representou o começo da desintegração daquela família, foi o primeiro da foto que desapareceu, logo foram os outros, e agora, só ela permanece.

Encontrou uma foto sua quando criança segurando a mão de sua mãe. Ela tentava se lembrar como tinha acontecido aquilo com ela, seu corpo tinha sido sempre frágil, sempre doente, ou tinha sido sua mãe que a deixara assim? Talvez a mãe a tenha deixado frágil, ela era a mais nova de cinco irmãos, um fruto temporão do casamento, nasceu quando os outros já se preparavam para sair de casa, viver suas vidas, e então veio ela, para ser mimada, superprotegida, e depois presa, embaraçosamente aceitando tudo que a mãe queria que ela fizesse.

A doença da mãe deu algum sentido para sua vida. Sua prisão era agora justificada, sua mãe precisava dela, não havia outra forma de resolver a situação. Porém, agora a mãe havia tirado sua própria vida, mas ainda vivia dentro dela, não podia se desvencilhar de tudo aquilo tão repentinamente, apagar uma vida que se tornara, além da obrigação, hábito diário. Pegou um dos vestidos de sua mãe e o vestiu, em frente ao grande espelho do guarda-roupas. Olhando as fotos antigas, podia se dizer que a mãe estava ali novamente, rejuvenescida. A semelhança era grande, sua mão voltava a viver novamente naquele espelho. Começou a pensar se teria o mesmo destino, se sofreria também daquele esquecimento progressivo de sua vida? Mas não havia vida para esquecer, esse foi o presente deixado por sua mãe, uma não vida, vazio e solidão.

Pegou um punhado dos remédios de sua mãe e os colocou na boca, mastigando, sentindo o gosto amargo e estranho daquilo tudo, queria apagar aquela possibilidade. Queria sair daquela casa, correr, encontrar alguém para conversar, desabafar, mas não havia ninguém para encontrar. Apenas sua mãe naquele espelho. Começou a andar pela casa, pegar coisas, que depois derrubava e quebrava, e ria daquilo, brincava como uma criança, na sala, nos quartos, mas não tinha coragem de entrar no banheiro, aquele lugar lhe dava medo, ficou horas vagando pela casa, horas noite à dentro, quebrando, chorando, rindo...

Logo o sol ia nascer novamente e era hora de fazer o café, sua filha sairia irritada do quarto para repreendê-la, e depois viria a enfermeira, com seus modos brutos, precisava se esconder, mas onde? Andou pela casa mais uma vez, mas não encontrou refúgio, só havia o banheiro, lá poderia ficar só, parou à porta, ganhando coragem para entrar naquele lugar. O relógio da filha despertou, não havia mais tempo, tinha que ser agora: Ela entrou e encontrou outro, estava horrível, o que tinha acontecido com sua vida, onde ela estava agora?

Logo a mãe começa a falar para a filha no espelho:

“Vê, olha só para você, perdeu tudo que tinha, perdeu tudo, você é fraca, frágil, por isso eu mantive você aqui, não está preparada para viver, tem medo, medo de tudo, por que não fugiu? Eu fugi, deixei tudo para trás, esqueci tudo. Você é uma criatura de obediência e disciplina, seus choros e queixas nunca foram reais o suficiente, você nunca quis, nunca quis nada de verdade, nem mesmo me salvar, você quis isso, você se fez assim...”

Fez cara de choro, queria que ela parasse, mas ela apenas falava e falava, não era justo, não depois do que tinha feito, sua mãe não podia fazer isso com ela. Do outro lado do espelho sua mãe sentou-se em frente a pia, ainda havia esperança, somente ela podia impedir que sofresse mais. Puxou a porta onde ficavam os produtos de limpeza, queria limpar as marcas da filha, limpar aquelas tatuagens horríveis, limpá-la por dentro do que tinha sobrado de sua vida, procurou pelos produtos coloridos, mas não havia mais nada lá, felizmente ela sabia que já estava morta, já havia vivido aquele momento e tudo estava terminado, limpo. Percebendo isso, de súbito, só restava a filha novamente, sentada no mesmo lugar onde a mãe morrera, e uma vontade enorme de sair, de correr para o supermercado porque não havia mais produtos de limpeza...

19/03/2009

Demon

(...) if we conceive of a being whose faculties are so sharpened that he can follow every molecule in its course, such a being, whose attributes are as essentially finite as our own, would be able to do what is impossible to us. For we have seen that molecules in a vessel full of air at uniform temperature are moving with velocities by no means uniform, though the mean velocity of any great number of them, arbitrarily selected, is almost exactly uniform. Now let us suppose that such a vessel is divided into two portions, A and B, by a division in which there is a small hole, and that a being, who can see the individual molecules, opens and closes this hole, so as to allow only the swifter molecules to pass from A to B, and only the slower molecules to pass from B to A. He will thus, without expenditure of work, raise the temperature of B and lower that of A, in contradiction to the second law of thermodynamics.