16/01/2010

Miguelito



Sua mãe havia decidido chamá-lo de Miguel, mas quando viu o bebê ele era tão pequeno e redondinho que não pode resistir, registrou o como Miguelito, o que obrigava as pessoas que queriam chamá-lo por um diminutivo terem de usar Miguelitozinho ou Miguelitinho, o que de forma alguma soava bem.
Dezesseis anos depois, Miguelito encontrou uma missionária adolescente chamada Cherrie, batista, feições nórdicas, genuína filha do meio oeste americano que estavam ali para construir uma igreja nova. Ele a conheceu, não podiam se comunicar, ela se foi e ele continuou carregando seu amor platônico por algum tempo, sentindo-se cada vez pior com o passar do tempo.
Arrasado resolveu aceitar o convite de uma amiga da escola e foi para uma festa na casa dela, cheia de pessoas viciadas em rock, solos de guitarra e estados alterados de consciência.
O pobre Miguelito queria esquecer e portanto bebeu mais do que podia e, tentando fazer com que seus pensamentos parassem de girar no sentido anti-horário resolveu aceitar um convite para fumar maconha com o pessoal. Enquanto tossia, tentou, por um longo tempo, manter uma aparência de sobriedade que, na verdade, o tornava extremamente cômico, pois de todos os estados possíveis para ele naquele momento, sobriedade era um dos que ele não poderia alcançar.
Logo o baseado terminou e foram brincar de tocar violão em outra parte do quintal e o deixaram sozinho novamente. Não conseguindo ir até onde os outros estavam deixou-se escorrer até debaixo de uma mesa próxima e ficou agachado ali por um tempo, sentindo cada vez mais uma fome desesperadora. Esticou a mão e puxou um pedaço de pão que havia caído por ali, pela aparência, talvez décadas atrás.
Percebeu, depois de um tempo lutando com a suposta comida que sua amiga o estava observando enquanto ele tentava mastigar o pão seco, totalmente sem saliva. Sentiu-se engraçado e achou que o adequado naquele tipo de situação era ser engraçado para ela também:
“Não consigo engolir, não consigo engolir. Minha boca tá seca, tô sem baba...”
Depois de dizer esta frase várias vezes, começou a rir sem parar, criando uma cascata de farinha de rosca recém processada. Sua risada ia subindo o tom até se parecer com os barulhos de um golfinho e ele mesmo percebeu isso, pois começou a bater palmas como se fosse Flipper reencarnado.
"Miguelito, você está bem?"
Não podia se concentrar em uma resposta, abraçou a perna da mesa e começou a cantar Wish You Where Here.
"I wish, I wish you were here... Cherieee."
Cantava, chorava, soluçava, tudo ao mesmo, até que olhou em volta e viu que as pessoas agora também haviam todos parado para olhá-lo. Devolveu para eles um olhar de desculpe-me, mas esqueci a letra do resto música e fez uma reverencia para todos. Vendo compreensão nos olhares, voltou ao estado de golfinho e continuou assim, até que sua mente e ele, de comum acordo, seguiram cada um para seu lado.

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