Meio sem vontade de entrar, o pai abriu o portão e, brincando com o cachorro que não parava de cheirar o samburá cheio de peixes, deu o passo para seu pequeno inferno. A mulher, ouvindo o regresso do marido, anunciou para que todos ouvissem e antes mesmo de ver o marido:
“Eu não vou e não vou mesmo limpar essas porcarias. Eu já falei pra você que não quero que vá pescar e que volte pra casa com estas porcarias.”
A resposta do homem veio na forma de um olhar amargo e um gosto de arrependimento subindo do estômago e direção da boca em um refluxo, junto com um desejo de voltar atrás e mudar tudo, porém viu o menino e percebeu que não havia mais volta e que tudo que estava feito não podia mais ser mudado.
Pegou uma velha bacia de alumínio, encheu de água no tanque e jogou os peixes dentro. Eram cinco bagres, que assim que entraram em contato com a água recuperam a pouca vida que haviam perdido no caminho até ali. O menino ficou admirado com aquilo, nunca tinha visto nada tão fantástico como aqueles peixes aparentemente recuperarem a vida de forma tão simples e aparentemente tão natural.
O pai retirou de uma caixa de pesca uma velha faca, escura, côncava, assustadora. Agarrou o primeiro bagre e o tirou da água, mediu onde devia cortar, e começou a abri-lo de fora a fora, o corte abrindo junto com o olhar do garoto. As entranhas saltaram, e junto um cheiro ruim de lodo e coisa apodrecida. Mas o peixe continuava se movendo, se contorcia enquanto as vísceras eram arrancadas pela mão do pai, que as soltavam dentro da bacia, onde depois ele lavava a mão e o peixe, para limpar o sangue e o soltava de novo junto aos outros.
O peixe ainda se mexia enquanto ele limpava o outro, mesmo sem nada por dentro ele ainda vivia. O homem viu o espanto do filho, ficou incomodado com aquilo e arrancou a cabeça do próximo, na esperança que isto o matasse. Mas foi em vão, o corpo ainda vivia, e possivelmente a cabeça com seus olhos ainda olhando o mundo, sentindo falta do corpo. O menino não conseguia mais conter a vontade de chorar, soluçava baixinho, viu o coração cair na água e ele ainda batia, o corpo lutava, e os olhos...
Não conseguiu mais resistir, enfiou a mão na água e pegou um coração que batia, ele o segurou na mão e correu com ele para o quarto, um canto escuro do quarto, e então, ali, sozinho, segurando o pequeno coração que batia, pediu perdão e levou a boca, engolindo ele inteiro, querendo sua alma
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